Biografia:
Josineide Dantas, popularmente conhecida como Gigi Poetisa, mulher preta, matriarca, atriz, poetisa, cordelista, feminista brejeira, militante ativa do Movimento Negro, e índia Xocó legítima, descendente da tribo Mundé da Onça. Gigi despertou a paixão por poesia desde criança, inspirada nos poetas proprienses Etinho e Dom José Brandão de Castro, e também em Nonô, senhor que vendia cordéis nas margens do rio São Francisco, em Propriá/SE, cidade onde a escritora nasceu. Mudou para Aracaju em 1981, para estudar pedagogia/magistério no ensino médio; cursou Educação Física na Universidade Federal de Sergipe. Como atriz, iniciou no teatro de rua no grupo MAMBEBE, outra inspiração para seus poemas. Foi muito influenciada pelos Mestres da Cultura Popular, João Sapateiro – nos Encontros Culturais de Laranjeiras/SE e pelo cordelista João Firmino Cabral e os poetas e repentistas que a poetisa via trovando na banca de João Firmino no Mercado de Aracaju. Deslanchou no cordel ao conhecer o imortal cordelista sergipano Zé Antônio – por Salete Nascimento, Izabel Nascimento, Gilmar Santana Ferreira e Zezé de Boquim, publicando em 2009 o seu primeiro folheto, “O Homem Moderno e a Revolução da Mulher”. Posteriormente publicou: Zumbi – O Sonho da Igualdade Racial no silêncio das palavras”; ‘O Saco da Enganação” (no prelo); “As Mulheres Guerreiras Decantadas em Cordel” (2010) e ‘A Realidade Sertaneja na Voz de Um Cantador – Homenagem a Luiz Gonzaga” (no prelo).
Gigi atua como Agente Comunitária de Saúde, sanitarista e militante do Movimento Negro Unificado e é filiada ao PSOL – Aracaju.
ZUMBI O Sonho da Igualdade Salve, mãe Iemanjá A benção pai olorum Proteja-me pai Oxalá Guia-me mãe Oxum Para versar com apego A luta do povo negro Pra poder se libertar No tempo em que o Brasil Pertencia a Portugal Os índios foram sumindo Da sua terra natal Também foram escravizados Com dente de cão caçados Do bandeirante Chacal Não tinha mais mão-de-obra Do índio escravizado E o rei de Portugal Um tanto desesperado Pegou sua caravela Lançou ao mar à vela Com seu exército formado Atravessou o oceano Ancorou no litoral Onde estava a mãe África Lindo continente tropical De um ar puro ameno De um povo negro sereno Sem pensamento Banal Quando chegaram à África Eu posso lhe afirmar: Acorrentaram o negro Para o escravizar No tal navio negreiro Tinha dor e desespero E sangue negro a jorrar Foi montado um cenário Para animais desgarrados Nas fazendas de café Os pelourinhos montados E lá nos canaviais Com instintos canibais Foram os negros chibatados Fora construídas as senzalas Com grades fortes de ferro Como animais selvagens Foram domados aos berros Com ferro quente marcados Com as iniciais de carrasco Podiam ser leiloados Os que não serviam mais Eram jogados na lama Também as mulheres negras Serviam como mucamas As sinhás brancas pariam Os senhorzinhos nasciam As negras lhe davam mama As belas mulheres negras Que as sinhás serviam Os senhores cortejavam Usavam e batiam As sinhás enciumadas Torturavam e as amordaçavam Nos pelourinhos elas morriam A história foi passando Lá no século dezesseis A raça negra aumentava Com maior rapidez Os negros se levantaram Grandes mocambos formaram Com astúcia e lucidez Os quilombos foram erguidos Em busca de liberdade Raça negra consciente Buscando a igualdade Com grito de resistência Mundo novo em eminência Construindo a identidade Mas, não era só os negros Que lá se refugiavam Mas todos os excluídos Que no castigo ficavam Por não terem ouro nem cobre O índio e o branco pobre Nos quilombos se abrigavam O grito de liberdade Foi uma grande conquista Logo aos negros se juntaram Revolucionários e abolicionistas Que sentiram suas dores Poetas e escritores Artistas e jornalistas Lá na Serra da Barriga Aumentava a resistência Os senhores de engenho Pediram ao rei clemência Formaram um batalhão Contrataram o capitão (do mato) Para atacar com violência O ataque aconteceu Antes de Zumbi nascer Exterminaram os negros Com crueldade e prazer Os negros que escapavam Na mata se embrenhavam Na luz do amanhecer