BPED – Biblioteca Pública Estadual Epiphanio Dória

Pelé 1.000 – Texto de Carlos Drummond de Andrade, em 1969

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. 

É fazer um gol como Pelé. Aquele gol que gostaríamos tanto de fazer, 

que nos sentimos maduros para fazer, mas que, diabolicamente, 

não se deixa fazer. O gol.

Que adianta escrever mil livros, como simples resultado de 

aplicação mecânica, mãos batendo máquina de manhã à noite, 

traseiro posto na almofada, palavras dóceis e resignadas ao uso 

incolor? O livro único, este não há condições, regras, receitas, 

códigos, cólicas que o façam existir, e só ele conta – negativamente – 

em nossa bibliografia. 

Romancistas que não capturam o romance, 

poetas de que o poema está-se rindo a distância, pensadores que 

palmilham o batido pensamento alheio, em vão circulamos na pista 

durante 50 anos. O muito papel que sujamos continua alvo, alheio 

às letras que nele se imprimem, pois aquela não era a combinação 

de letras que ele exigia de nós. E quantos metros cúbicos de suor, 

para chegar a esse não-resultado! 

Então o gol independe de nossa vontade, formação e mestria? 

Receio que sim. Produto divino, talvez? Mas, se não valem 

exortações, apelos cabalísticos, bossas mágicas para que ele se 

manifeste… Se é de Deus, Deus se diverte negando-o aos que o 

imploram, e, distribuindo-o a seu capricho, Deus sabe a quem, 

às vezes um mau elemento. 

A obra de arte, em forma de gol ou 

de texto, casa, pintura, som, dança e outras mais, parece antes 

coisa-em-ser da natureza, revelada arbitrariamente, quase que 

à revelia do instrumento humano usado para a revelação. Se a 

obrigação é aprender, por que todos que aprendem não a realizam? 

Por que só este ou aquele chega a realizá-la? Por que não há 11 Pelés 

em cada time? Ou 10, para dar uma chance ao time adversário?

O Rei chega ao milésimo gol (sem pressa, até se permitindo o 

charme de retificar para menos a contagem) por uma fatalidade à 

margem do seu saber técnico e artístico. 

Na realidade, está lavrando 

sempre o mesmo tento perfeito, pois outros tentos menos apurados 

não são de sua competência. Sabe apenas fazer o máximo, e quando 

deixa de destacar-se no campo é porque até ele tem instantes de 

não-Pelé, como os não-Pelés que somos todos.

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