BPED – Biblioteca Pública Estadual Epiphanio Dória

Alda Cruz

Alda Cruz

Biografia:

Alda Santos Cruz, mulher preta, idosa, natural de Aracaju, tem uma voz feminina potente e é uma das principais expressões culturais da literatura da poesia popular no Brasil. Ela é uma das grandes representantes do cordel no Brasil e símbolo de resistência negra e feminina da literatura popular, uma voz que resiste à invisibilidade histórica das mulheres nos espaços culturais predominantemente masculinos.

Filha do ex-operário da Leste Brasileiro, Antônio Francisco dos Santos e da operária têxtil Maria Olinda Santos, Alda Cruz nasceu no bairro Siqueira Campos em 1929.

Em 2023, foi homenageada na escola pública do sertão sergipano, o Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa, em Nossa Senhora da Glória, 115 km de Aracaju, que passa a contar com a Cordelteca Alda Cruz, que possui em seu acervo 456 folhetos de autoras e autores sergipanos e de outros estados. Em 2024 foi candidata a vereadora em Sergipe.

Alda Cruz é acadêmica e fundadora da Academia Sergipana de Cordel (ASC), ocupando a cadeira n° 9 (patrono Otávio Laranjeiras, seu pai). Também é acadêmica e fundadora da Academia São Cristovense de Letras e Artes (ASCLEA), cadeira n° 7. Ela recebeu o título de comendadora de Mérito Cultural do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC). Possui dezenas de cordéis publicados, como, Luiz Gonzaga – O eterno rei do baião, Apesar de tudo ela ainda vive, A bíblia, quem somos nós? – Mente, corpo e espirito, O SESC – A caminho de Belém, Cuidar de quem cuidou, O sertão tem história, entre outros

O NEGRO E SUA CONSCIÊNCIA 


Dia (20) vinte de novembro
Morre Zumbi dos Palmares
Líder da consciência negra
Faz parte do calendário 
Líder da resistência negra
Luz cada vez mais acesa
Dia 20 é comemorado.

A lei 10639/03
É a resistência do negro
Não devemos desperdiçar
Nossa voz e nossa vez
Integração dos direitos humanos
Entidade de raízes africanas
Somos amparados pela lei.

A batalha é contra o racismo
Vai além doa “mimimis”
Racismo estrutural e velado
Reflexo fácil de sentir
Discriminação que perdura
Já incorporada à nossa CULTURA
Temos que admitir.

As cores da desigualdade
Lembram os ancestrais no passado
É como veias que sangram
Igual ao negro castigado
Pra provar que é capaz,
Ele paga por seus ancestrais
Negro de “macaco é chamado”.

“O Brasil o último país
A acabar com a escravidão
Tem uma intrínseca perversidade 
Somos presos à tradição”
Darcy Ribeiro assim falou
Esse antropólogo e escritor
Em relação à população.

A população negra
É violentada e sofrida
Violentada pelo preconceito
Pela discriminação da mídia
Castigada com chicotada
E cuja alma ensanguentada
Expõe a dor da sua vida.

Quem ganhe e quem perde
Com tanta inconsciência
Com a história desse país
Que tem líderes da resistência
Cujo objetivo foi discutir
Discutir e construir
E assegurar independência?

Esse ser humano consciente
Busca a ação refletindo
Sobre o seu papel na sociedade
Sem Discriminação ou racismo
Pois o homem é o cidadão
Precisa ter a conscientização
Da mistura acontecida.

Dessa mistura racial
Restou a discriminação
Negro quer dizer empecilho
Existe as cotas na educação
No cotidiano profissional
A igualdade racional
Ainda não tem solução.

A população negra
Ela conseguiu conquistar
Sua independência social
Não tem como contestar
No esporte, na politica
Nos palcos, nas esquinas
Temos o que comemorar.

Negro e sua consciência
É ter a ginga no samba
Usar banzo e cuíca
Ser um exímio bamba
Alguém levar o que é seu:
Liberdade que não desenvolveu
É ser da raça africana.
Negro e sua consciência
É compor músicas carregadas
Um ritmo contagiante
E saudar a alvorada
Com violão pelas ruas 
“Acender” o clarão da lua
E ter a alma renovada.

Negro e sua consciência
É fraternidade sem fronteira
Trabalhar com todo afinco
A alma livre sem barreiras
Sua morada na favela
Cidadão de alma sincera
Com sol, com chuva, com clareira.

Negro e sua consciência
É criar sua fantasia
A fantasia nas vestes
Carregada de poesia
Fantasia também na mente
Que só o negro sente
Alegria que contagia.

Negro e sua consciência
É deixar a pátria africana
Atravessar o oceano
Vim plantar cana, plantar fumo
O navio chama-se negreiro
Cidadão comprado a dinheiro
E ter controlado o rumo.

Negro e sua consciência
É a realidade da fé
Dançar carnaval pra você
Você aplaudiu de pé
Logo que a escola passou
Você então ignorou
Negro nadou contra a maré.

Negro e sua consciência
É sinônimo de trabalho
Construiu belas igrejas
Onde os ricos rezavam
Porém uma discriminação:
Negro ficava no porão
E os brancos então gozavam.

Negro e sua consciência
É construir belos palácios
Verdadeira fortaleza 
Hoje a arquitetura tombada
A tecnologia nem se arrisca
Não há técnico que insista
Foram suas mãos calejadas.

Negro e sua consciência ´
É tornar-se marceneiro
Construir moveis por excelência 
Trabalhar a vida inteira
A sua cor o discrimina
Não tem direito a piscina
Pois negro é um forasteiro.

Negro e sua consciência
É escudo da vadiagem
Escudo da preguiça
Como se nada mudasse
A predominância sobre os negros
De ritos afros brasileiros
Enganado por bobagens.

Negro e sua consciência
É você então pressentir
Que será sempre usado
Então tratar de resistir
Com sociedades fraternais
Esses quilombos naturais
Por isso tem que fugir.

Negro e sua consciência
É você então conseguir
Os açoites em suas costas
Você então transferir
Para a doçura, cordialidade
Ouvir um Deus de verdade
Também voltar a sorrir.

Negro e sua consciência
É a conscientização 
Que existe um equívoco:
Grande discriminação
Discriminação equivocada
Sociedade sufocada
Por falta de determinação.

Negro e sua consciência é a coragem de pisar
Nos pupilos, nos congressos
Sem esquecer de se lembrar
Somos os discriminados
Ou melhor, monitorados
Isso chama-se homenagear.

Negro e sua consciência
Não dá para acreditar
Temos “cotas” na educação
E o receio de ultrapassar
Se não houvesse limite
Essas gentes da elite
Não conseguiam se formar.

Negro e sua consciência 
É fazer vatapá
O efô, acarajé
Tudo isso pra variar
A pedida é a feijoada
Muita pimenta, carne assada
E o terreiro pra sambar.

Negro e sua consciência 
É cuidar bem da família
O filho ser alimentado
Com o leite que a mãe tinha
Um verdadeiro regaço
Mãe e filho, aquele “abraço”
Alimentando sua cria.

Negro e sua consciência
É uma verdadeira política
Estamos no caminho errado
De repente vem a critica
Se estão no patamar
É motivo para incomodar
Uma situação ridícula.

Negro e sua consciência
Via sacra de sofrimento
Vida cheia de injustiça
Eu denomino exemplo
Exemplo pra sociedade
Uma lição de moralidade
Esqueçamos os argumentos.

Negro e sua consciência
Essa pergunta existe:
O que tanto lhe incomoda?
E o deixa assim tão triste?
A pergunta para a sociedade
Cidadã cheia de maldade
“Cuide-se é muito simples”.
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